
em 11/08/2010, às 02h16min.
Elder Corrêa
Não pensem que pedalei 380km só para fazer essa série de reportagem sobre o recenseamento em São Gabriel, se bem que valeria o esforço, pois vocês saberão qual é a grande problemática da região nos próximos capítulos. Acontece que mesmo em férias não paro de pedalar atrás de histórias, então fique por dentro do que acontece na Terra do Marechais durante o recenseamento feito pelo IBGE.
Quem ainda não recebeu os recenseadores em casa, está prestes a ser contado. Se você, leitor, mora no bairro Independência, em São Gabriel, provavelmente será contado pela recenseadora Ceres Lenita Teixeira. “Não é todo mundo que abre a porta para nós. Te gente que fica desconfiada”, é o que relatam alguns recenseadores nos corredores do posto do IBGE. No total são 77 agentes, saiba agora como foi o primeiro dia de entrevistas da recenseadora Ceres para o IBGE e algumas histórias dela, que pode bater à sua porta qualquer dia desses.
As entrevistas de coletas de informações começaram oficialmente no dia 2 de agosto em todo Brasil, mas aqui em São Gabriel as atividades dos recenseadores só começaram na terça. Não para todos, faltou kit de identificação para quase a metade dos agentes, que até segunda-feira deve ser solucionado. Ceres começou na quinta-feira. Para as primeiras entrevistas o supervisor de cada setor (cada setor é dividido em aproximadamente 6 quarteirões ou 300 domicílios) acompanha o recenseador para minimizar as dúvidas que possam surgir no decorrer das entrevistas. O jovem Leandro Ualace Molina era o supervisor de Ceres. Marcaram de se encontrarem na Rua Paraná para a entrega do kit (colete, boné, manual de recenseador e PDA- esse é o nome da maquininha de armazenagem das respostas). Enquanto vestia o colete e indagava se era mesmo necessário usar o boné (é obrigatório) contava que quando participou do censo agropecuário em 2007 também iniciou naquela esquina. Leandro deu algumas instruções e relembrava o que tinham ensinado no treinamento realizado na semana anterior para todos os recenseadores.
Superada a obrigatoriedade do boné, o problema foi na maquininha. O PDA estava sem carga. Fomos até sua casa para recarregá-lo. Enquanto o aparelho se enchia de carga, ela contava um pouco de sua vida. “Nunca tive carteira assinada, mas sempre trabalhei como autônoma. Hoje eu vendo jóias, perfumes (...). Antes de eu vir para São Gabriel (há 11 anos) era fotógrafa em Vila Nova, mas com as câmeras digitais fui perdendo espaço.”
Ceres escolheu seu setor por proximidade, pois considera mais fácil entrevistar conhecidos, além de não perder tempo com deslocamento. Já com maquininha em punho, voltamos para o ponto de partida, na Rua Paraná. Na primeira casa cadastrada (desde março os supervisores mapearam e cadastraram todos os domicílios da cidade) não havia ninguém. O que não era bom, já que Ceres espera completar seu setor em menos de duas semanas para poder recensear outras localidades e aumentar sua renda. No censo agropecuário ela faturou quase R$ três mil reais, completando sete setores. Abre um grande sorriso lembrando o tanto que pode comprar com aquele dinheiro. A primeira quadra era pequena, não tinha mais de 50 metros e apenas cinco casas no lado que lhe conferia para pesquisa. Todos os questionários daquela quadra foram básicos, demoraram menos de dez minutos cada um. Veja os dois modelos de questionários.
A primeira entrevistada foi Fernanda Rodrigues Lopes, 24 anos. Ela se surpreendeu com a visita da recenseadora, pois não esperava que fossem bater sua porta. Justamente por não recordar de ter sido entrevista nos censos anteriores. O supervisor conta que é comum as pessoas pensarem que não foram contadas, pois na maioria dos casos quem responde às questões são empregados ou filhos dos donos da casa, que se esquecem de avisá-los. Lembra um caso em que um senhor reclamou que não visitaram sua casa no censo de 2000 e quando foram averiguar, esse mesmo senhor foi quem respondeu ao questionário e havia esquecido.
Já na quarta face do quarteirão, mais uma dúvida: Ceres lembrou que no pátio da escola João Goulart morava a família do brigadiano que cuida o colégio. Essa casa não estava cadastrada e foi incluída pela recenseadora. Até então todos os entrevistados foram sorteados com o questionário básico, só no penúltimo domicílio apareceu o questionário de amostra (10% dos questionários são de amostra). Para responder todas as perguntas precisou de quase meia hora. Foi na Comunidade São Francisco de Assis, a irmã Imilda Adela, 74 anos,disse que todas as perguntas foram pessoais, mas nenhuma lhe invadiu a privacidade, disse que respondeu a todas elas com naturalidade e já esperava o IBGE em sua casa, que divide com outras religiosas da Comunidade.